15 setembro, 2007

ANDANDO, SEM SAIR DO LUGAR...

Não dá para deixar de lado uma constante nos noticiários de cada dia: os flagrantes de apreensão de drogas, tipo maconha, cocaína e ecstase, feitos pela polícia em suas inspeções de rotina ao longo das estradas e nos morros da cidade do Rio de Janeiro, onde até um laboratório de preparação e refino de cocaína foi recentemente encontrado. Mas deve haver muito mais do que o que se encontra porque as buscas, em geral, são randômicas, e o fluxo do consumo não se detém – disso se sabe até por intuição. Por informação também se sabe que o consumo de drogas é internacional e se vale de todos os meios de transporte. E passa. O que varia é a imaginação, a inventiva dos “mulas” e a sorte dos que fazem o comércio ilegal das drogas.
A estes fatos de ordem policial se sobrepõem outros, de importância muito maior, por dizerem respeito ao comportamento humano, que abarca todas as latitudes e ganha visibilidade e significação.
Fica cada vez mais claro que, de um modo geral, o ser humano não sabe ou não consegue viver sem recorrer a substâncias, químicas, a mitos e a fantasias, para fazer face à fragilidade intrínseca à condição humana, desde que esta misteriosa experiência de viver nos foi imposta. Viver sem saber porque e nem para que, e sem explicação de qualquer espécie, não é nada fácil. Tudo o mais começa aí.
Os mitos religiosos foram o nosso primeiro recurso defensivo. E persiste. Neste terreno foi a fragilidade que inventou os deuses, os rituais e os templos para levar a cabo todas as adorações acompanhadas de rezas bajulatórias, disfarçadas de gratidão, com as quais os crentes querem garantir sua ressurreição noutro mundo. O importante é não morrer, nem sofrer. A moderna Síndrome de Estocolmo, recém inventada, é uma nomeação medicalizada da dinâmica do mesmo medo que se quer combater pelo recurso às religiões.
Depois vieram os mitos políticos, aos quais devemos a invenção dos sistemas de governança, expostos em múltiplas ideologias, em torno das quais surgem as guerras e as intermináveis contendas, de que se espera o surgimento de uma sociedade civilizada - algo que equivale ao paraíso prometido pelas religiões, noutro mundo.
As ideologias políticas e as religiões nem alcançam os propósitos para os quais foram criadas e nem desistem de suas promessas, porque seguem repetindo os mesmos slogans que re-alimentam as esperanças ingênuas dos que pacientemente postergam um acerto de contas com a realidade, ou dos que fizeram do maniqueísmo seu esporte preferido.
Ao fracasso dos monoteísmos soma-se agora a semi-inutilidade das democracias, no seio das quais todos os extremismos se digladiam interminavelmente, protegidos por ingênuas e ferozes nomeações de ‘direita’ e ‘esquerda’, que não passam de modernas formulações do velho maniqueísmo, onipresente e interminável.
Assim como já se disse que “as religiões são o ópio do povo”, pode-se, agora, afirmar que ”as ideologias políticas são o ópio da classe média”, especialmente dos intelectuais.

Falemos, agora, do ‘ópio’, num nível menos metafórico. A drogadição não se disfarça de utilidade social e nem pretende ser um condutor divino para a paz entre os homens. Ela é uma espécie de ‘cansei’, uma busca de soluções presentificadas, dos que nem suportam esperar pela ressurreição e nem pela extinção das desigualdades sociais. É uma solução química, de duração limitada, diretamente proporcional à dose ingerida. Não passa de um passeio hedonístico pelos caminhos mentais da onipotência, de fácil acesso, a que recorrem e aderem os que não suportam a fragilidade humana e não podem esperar pelo cumprimento das realizações onipotentes dos deuses.
A drogadição é uma forma do politeísmo, comporta muitos ‘deuses-drogas’ e se alimenta das sensações que são os chamados “baratos”, específicos para cada substância ingerida, fornecida pelos sacerdotes (narcotraficantes) de um credo, que se escondem nos morros e se alimentam, eles próprios, da onipotência de criar estados paralelos e se atribuir o direito de matar quem não os obedece ou atrapalha seu proselitismo sui generis. As religiões, as ideologias políticas e a drogadição são, no fundo, diferentes modalidades de uma busca de onipotência a que a humanidade está entregue desde o início dos tempos, por não suportar esse encontro lúcido e necessário com a perplexidade e por confundir a educação dos filhos com um proselitismo religioso, perpetuador dos mitos.
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5 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Muito bom o artigo. Tenho um comentário: juntamente com as religiões e talvez antes delas o homem recorreu à bebida alcoólica. Tenho uma outra perspectiva: sabendo-se a fragilidade do homem estaríamos sendo onipotentes em exigir dele prescindir de recursos atenuantes da dureza do existir. O importante é a escolha dos derivativos, das válvulas de escape e seu uso não excessivo. Beber com moderação para reduzir tensões, acreditar ambiguamente em forças superiores, olhar a vida com uma mirada estética, sentir-se em comunhão com alguém ou alguma coisa, identificar-se com as novas gerações dando um sentido de continuidade que ultrapassa a morte, realizar uma obra perene deixando seu nome na história, etc. Uma mistura de alguns destes ingredientes ingerida diária e moderamente poderá tornar menos pesado o fardo de ser humano.
Nahman

4:38 AM  
Blogger Zusman said...

Meu caro anônimo
Tudo que voce disse é absolutamente razoavel. Só que não funciona porque ninguém, ou muito poucos, se limitam ao mais-ou-menos.
A maioria se excede e o mundo desde o início dos tempos fica regido pelos excessos. As religiões, as ideologias e as drogas se prestam a todo tipo de abusos, em nome da fragilidade que pretebdem defender.A onipotência é um engodo a que quase todos se entregam.
Grato pelo comentário.

12:33 AM  
Anonymous Helio said...

Waldemar, qual o remédio?

10:26 AM  
Blogger Zusman said...

Prezado Helio,
A chave é tentar suportar a fragilidade intrínseca ao ser
humano, sem recorrer a fantasias onipotentes e olhando com muita desconfiança para mitos que prometem paraíso no céu, na terra ou na cabeça embebida em drogas. Tudo o que promete poderes absolutos escapa do controle e toma conta do ser humano. Ponto muito importante : é preciso não
catequisar as crianças com histórias de Papai do Céu, Deus, Imortalidade e Ressurreição. Inoculadas com essas representações de poder tudo fica mais dificil. Ninguém quer abrir mão da onipotência pessoal ou divina.
Grande abraço

12:05 PM  
Anonymous Henrique said...

Caro Zusman
Como é bom ler um trecho seu, sem necessidade de ser politicamente correto e , como consequência estar livre de slogans e chavões intelectualóides.
Seu artigo me fez pensar: Será possível ao ser humano situar-se no mundo sem recursos defensivos?
Creio que a ilusão de onipotência descrita por Winnicott é fundamental como uma espécie de tampão neutralizador de cargas excessivas e assim, permissiva de vida.Penso que temos como carga inata a necessidade de idealizar o que no processo de maturação será a fonte de ideais que se tornam mitos quando perturbações ameaçam ocorrer(Kohut).
Obrigado,Zusman,pelo privilégio de ter com você uma troca de idéias.
Com um abraço muito amigo,
Henrique Honigsztejn

12:09 PM  

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