07 julho, 2006

O QUE COLA E NÃO COLA NA FALA DE MARCOLA

Comecemos pelos elogios que Marcola se faz na suposta entrevista de 25/6/06. Ele se apresenta como inteligente e culto, e fundamenta suas afirmações citando Dante e expondo raciocínios de cuja argúcia ele se orgulha, tipo: “nós somos o início tardio de vossa consciência social... viu?...“Sou culto... Leio Dante na prisão...”
Não se pode negar a Marcola a inteligência que alega e nem a cultura que ele apregoa, dizendo já ter lido 3.000 livros na prisão.
Pode-se, no entanto afirmar, que a inteligência e a cultura só valem quando estão a serviço de causas humanitárias e não pelo que são em si mesmas ou quando estão aplicadas a causas torpes. O nazismo é um exemplo claro e recente deste tipo de equívoco.
Toda a argumentação do entrevistado tem um caráter de extrema arrogância, e nem sua inteligência e sua cultura ajudaram-no a reconhecer e avaliar a extensão de uma evidente anomalia na formulação de seus pensamentos. Pelo contrário. Conduzido pelas mãos da arrogância ele se deixa levar para um auto-aplauso constante e uma enorme necessidade de ameaçar e intimidar o grupo social por quem se sente ameaçado e intimidado. Na prisão de segurança máxima a que está recolhido, ele perguntava ansioso aos guardas que entravam na sua cela se tinham ido ali para matá-lo, quando faziam a inspeção recomendada nos dias da rebelião. A imprensa noticiou...
Isso de que não tenha medo de morrer está bem longe da verdade, como se vê na pergunta que fazia. Ele, no entanto, não o percebe porque projeta acertadamente nos que estão fora do presídio o seu próprio medo da morrer.
Na verdade o medo de morrer existe em todos os seres humanos e é este medo que nos defende da morte. A ele devemos todos os cuidados que temos com a preservação de nossa sobrevivência. O que faz diferença é a maneira como cada um lida com esse medo. Há até quem diga que não tem medo porque não suporta conviver com a consciência de seus temores. Ele pretende que os que estão fora das cadeias são tão presos quanto ele, que está encerrado num cubículo e perdeu a liberdade de ir e vir. Prisioneiros do medo somos todos. Mas nossa locomoção é livre.
Até aqui tudo o que ele disse na entrevista não cola.
Vamos, então, ao que cola.
Marcola diz, na entrevista, com adequada lucidez, que quem gera o narcotraficante são os viciados, os que consomem a mercadoria que ele vende ou vendia, e que se escondem em seus luxuosos apartamentos para o consumo mais ou menos coletivo das drogas. Diz ainda que a mercadoria que ele vende passa pelos “barões do pó”, entre os quais existem deputados, senadores, generais e até ex-presidentes de paises vizinhos; Diz mais ainda: o tráfico de armas caminha junto com o das drogas. Disso não se duvida, mas isso não chega a ser uma novidade Todos sabemos do poder dos “barões do pó”, e sabemos também que este fenômeno é universal. Foi provavelmente a primeira das globalizações Ninguém sabe ainda como é que se pode por um fim a isso.
O problema não é tão simples e não é possível reduzi-lo aos esquemas simplificadores da desigualdade social como em certos trechos da entrevista o próprio Marcola insinua. Essa não cola.
A drogadição já se espalha por todas as camadas sociais e já atende ao poder de consumo de todas as classes. Vai da cola de sapateiro à cocaína, passando por inúmeros outros produtos naturais ou sintéticos.
Mas o que ele diz sobre uma nova linguagem é pura verdade. Cola. A fala dos narcotraficantes gravada pelos registros polícias das conversas telefônicas são inconfundíveis. Quem “ta ligado” logo percebe. Dá para ver também que no nível da fala coloquial a liberdade de expressão passa pela “lavagem dos palavrões”, tipo “caracas!” em lugar de... ( está ligado?).
O comportamento sexual passa por transformações tacitamente aceitas como a revolução feminina do “ficar” e da total permissividade dos “raves” de que muito se sabe e pouco se fala.

Há em tudo isso um sentido de busca do prazer que, na verdade, vem de tempos imemoriais. Os homens dos primeiros tempos inventaram o mito do paraíso, que estaria a disposição de todos que tivessem a paciência de esperar por ele depois da morte. A maioria aceitou, mas o progresso da ciência e da tecnologia esticou a vida. Agora já se vive mais facilmente até os 80 ou noventa anos. Simultaneamente, hoje já se faz tudo em tempo menor. Como esperar tanto tempo – agora muito mais longo – pelo paraíso cada vez mais fugidio, distante.
As drogas dão uma solução ao problema da impaciência, ( par constante da velocidade) criando nos seus usuários um estado mental que lhes permite crer que estão no paraíso sem ter que esperar pela morte, que embora não falte, tarda. Se ligou?
A narcotraficancia , a drogadição e as multinacionais-do-pó derivam de um mito, adotado por todos as religiões, que não contavam com o progresso tecnológico e nem com impaciência, que é prima-irmã da velocidade. Até que algumas coisas ditas pelo Marcola, colam. Ta ligado?
O estado mental gerado pelo consumo das drogas o é o que mais se parece com o que todas as religiões prometem desde o início dos tempos: o paraíso.

8 Comments:

Blogger Sujeito Oculto said...

Na verdade, acho que a falta de medo de morrer é a falta de consciência desse risco. Essas pessoas se julgam imortais, inatingíveis devido ao poder que obtiveram na criminalidade. E concordo que a inteligência de nada vale se não for usada para causas humanitárias. O que muda é a definição do que são essas causas.

1:48 PM  
Anonymous LÉA M.O.C.L. said...

ZUSMAN, IMPRESSIONANTE A ENTREVISTA DO M.PRINCIPALMENTE PARA A IMENSA MAIORIA QUE NÃO PENSA. VC. HONRA A CLASSE DOS PENSANTES COM SUA "PACIENTE" E INTELIGENTE DESCONSTRUÇÃO DESTE PENSAMENTO PERVERSO.O MITO DA INTELIGENCIA E DA ERUDIÇÃO TB. SÃO ENGANOSOS. É ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO EXAMINAR A QUE USO E FUNÇÃO ESTÃO SERVINDO.CRIAR? DESTRUIR? ISTO PARA COMEÇAR UMA DISCUSSÃO.

6:37 AM  
Anonymous ANA LÚCIA DE CASTRO said...

Caríssimo Zusman,
Seu texto tem as características próprias do autor, ou seja, brilho e inteligência faiscantes. Por isso mesmo, alguns comentários valem ser colocados. Em primeiro lugar, não há a menor evidência da autoria dessa carta atribuída ao Marcola; há, sim, desmentidos eloqüentes.
Mas o que importa é o aproveitamento que você faz das idéias expostas e de como você tece seu comentário. Quando você aponta a arrogância do Marcola, pode-se dizer que é proporcional à ineficiência do sistema prisional brasileiro, fato que enseja "acesso" pleno (se é que é verdadeira a entrevista) à mídia e facilita o comando minucioso do crime organizado diretamente da cadeia.
Quando ele alerta para o fato de que está adquirindo cultura por estar lendo, o que parece positivo à primeira vista, na verdade, oculta uma prerrogativa de controle da própria vida na prisão, pode-se dizer do próprio sistema, pois tais livros (ressalvando ainda a veracidade da carta) lhe são enviados, ou não, funcionam para dar garantias de uma exposição midiática enarcizada, poderosa, sem limites. Isso facilita em muito a manipulação dos comparsas de dentro e de fora da cadeia.
Outro ponto que vale um comentário é sobre a morte, ou o desejo de morte, uma companheira permanente de qualquer criminoso, uma aliada funcionando como um az na manga para o caso de dar alguma coisa errada, ou de se chegar à situação-limite de ter que abrir mão da vida, que para ele não tem valor de troca. Mas, sim, de compra de mais um dia, ou seja, uma moeda pouco valorizada. Até porque, morto, ele não tem como negociar nada, mas vivo sempre há uma chance de barganha.
Medo de morrer é bem verdade, como você afirma, um temor manifesto por toda humanidade, pelo menos por aqueles com senso de realidade. Já o criminoso, ao enveredar por essa trilha desviante, a morte assume um caráter sacrificial, não no sentido heróico do termo, mas da vingança, da revanche ao sistema que não o incorporou, que não lhe reconheceu como inteligência privilegiada do crime que, apesar de tudo e de todos, ele pôde mostrar o quanto é capaz e brilhante.
Um sentimento de triunfo equivalente a de um naufrago sem bóia, isto é, sem família ou instrução, na maioria deles, sem sentimento de pertencimento. O vínculo estrutura-se com a facção do crime, a família é a do comando e os irmãos são os cúmplices. Até que tudo se desmantele e novo agrupamento se forme com as mesmas características anteriores.
Quanto à droga representar o paraíso perdido e cada vez mais distante, no caso desse tipo de criminoso, como Marcola e Fernandinho Beira-Mar, etc., não me parece próprio dessa estrutura mental tão psicotizada ansiar pelo paraíso como recompensa. Talvez o que ele almeje seja uma vida eterna, mas vida real, bem vivida, com tudo que ele acha que lhe foi negado, até porque ele aspira o controle absoluto do sistema.
O indivíduo que poderá fazer essa ilação sugerida por você é aquele com perfil mais classe média, que tem como horizonte os princípios morais típicos burgueses, elásticos o suficiente para contemplá-lo com o paraíso prometido pela crença religiosa; dádiva que ele teme, porém deseja ardentemente. Promessa é dívida, como o diz o ditado popular.
Mas voltando ao criminoso: ai dele se não tivesse um narcisismo de morte bem ativado, como cunhou André Green, pois seu projeto de poder morreria no primeiro embate, na primeira pena a ser cumprida, ainda mais quando se sabe que o sistema carcerário brasileiro é, e sempre foi, equivalente aos mais terríveis sistemas das ditaduras orientais e ocidentais. Guantânamo é aqui.
Um abraço e desculpe pelo alongado do texto, ou como diria Vinícius, pelo adiantado da hora.
Ana Lúcia de Castro

8:27 PM  
Blogger Zusman said...

Prezada amiga Ana Lucia. Grato por seus calorosos elogios. Gostei muito da argúcia de seus comentários.
Sobre mitos:como o conceito de paraiso é um mito, cada um inventa o seu. O de Marcola e de muitos outros narco-traficantes parece mais ser um mito de poder absoluto, uma liberdade de matar e reinar. Resumindo: criar o seu proprio Estado, garantido pelo poder das armas indefensáveis e da "cerimonia do luto" imposto ao comercio local das comunidades onde
vivem.

9:02 PM  
Anonymous HEITOR DE PAOLA said...

Caro Zusman
Parabéns pelo seu blog, está muito bem estruturado, belo design, e funcionalidade. Que prospere.
Quanto ao artigo de Marcola tenho alguns comentários e divergências.
É claro que o Marcola é arrogante, mas não somente por ser assim como também por saber que conta com a mídia e com uma maioria de "intelectuais" orgânicos (na expressão de Gramsci) reunidos ou não nas ONGs de "defensores dos direitos humanos" que incensam sua arrogância ao dar-lhe o status de herói e vítima de um sistema iníquo de desigualdade social que o torna um "excluído". Concomitantemente estão sempre à espreita de qualquer reação policial, condenável a priori como "violação dos direitos humanos". Direitos dos bandidos, é óbvio, pois jamais protestam pela morte de policiais, como vêm ocorrendo nos últimos dias. Ontem mesmo novos ataques não provocaram a ira de tais defensores, mas esperemos a necessária e previsível ação policial: será taxada de extermínio, execuções, etc. É maçante a interminável repetição dos mesmos slogans previsíveis.
Ao mesmo tempo, acusam o "sistema prisional" brasileiro como se cadeia fosse hotel de turistas bem comportados e não lugar de bandidos cumprirem suas penas.
Nada disto é surprendente por estes defensores dos direitos humanos têm como heróis assassinos, terroristas e bandidos do porte de Che Guevara, Fidel, Stalin, Mao, Lenin, Pol Tot, etc. E foram os terroristas que hoje estão no poder que, quando prisioneiros políticos, ensinaram estas táticas de guerrilha urbana aos bandidos comuns. Agora, se divertem, enquanto prestam declarações bombásticas!
Discordo quando você diz que a explicação do Marcola de que "são os consumidores em seus apartamentos de luxo que geram o tráfico", cola. Para mim não cola! É uma óbvia tentativa de projetar a culpa nos outros, não por coincidência na malvada burguesia. É, ao contrário, o tráfico que gera os consumidores e o tráfico realmente tem seus barões: o primeiro escritório internacional das FARC foi aberto em Ribeirão Preto pelo então Prefeito Antônio Palocci. O PT é sócio das FARC na mesma entidade já conhecida mas nunca citada, o Foro de São Paulo.
Muitas outras coisas eu poderia dizer mas já me extendi demais.
Abração,
Heitor

7:50 AM  
Anonymous Anônimo said...

Waldemar Zusman,
Adorei poder ler esse seu texto, principalmente neste momento em que estou tentando escrever um texto sobre situações que estive vivendo quase que diariamente no trabalho. Mães ou conselhos tutelares, que trazem meninos adolescentes, na sua maioria, para tratamento na rede de saúde mental por estarem entrando para o tráfico ou alguma outra atividade criminosa. A pergunta que fica é: isso se trata?!
Um abraço,
Lina Nunes Gomes

11:53 AM  
Blogger Zusman said...

Prezada Lina Nunes Gomes

Bom te re-encontrar neste nosso blog, para blogarmos. Adolescentes vivendo problemas de drogadição em seus momentos iniciais podem ser submetidos a tratamento. O prognóstico é variavel,mas a tentativa pode ser feita.
Um abraço

3:25 PM  
Blogger Zusman said...

Caro Heitor

Agradeço teus aplusos ao Blog que estamos inaugurando por agora. Quanto às divergências, não há problemas. É blogando que a gente se entende.Concordamos em que o Marcola é arrogante. Quanto ao uso que os “intelectuais orgânicos” fazem disso para absolve-lo deste pecado ao dizer que ele é assim porque é um excluído, vai alguma diferença. Primeiro porque nem todo “excluído” se torna, necessariamente, um arrogante. Os “intelectuais orgânicos”, ao que me parece, é que criam frases infundadas e destinadas a se tornarem slogans, porque sabem explorar as ingenuidades populares como esta que afirma que as desigualdades sociais são a causa de todos os problemas humanos. A luta contra as desigualdades - sabem-no os que se aprofundam no conhecimento da natureza humana – é muito mais uma demanda da Inveja do que dá Justiça. A igualdade social é um mito, tanto quando o paraísouma utopia. Não existe em parte alguma, como o próprio nome o diz. Políticos e religiosos, no entanto, fazem uso dessas promessas irrealizáveis, desde o início dos tempos. Os mais pacíficos rezam, os mais revoltados fazem guerras ou revoluções.. Nenhuma das duas coisas levou a parte alguma. Todos os santos e todos os heróis, recheados de boas intenções, nada fizeram de valioso. Continuamos todos escravos de mitos políticos e religiosos.
Espero encontra-lo mais vezes neste nosso blog.

1:19 PM  

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